terça-feira, 24 de fevereiro de 2015


Perturbação de oposição – Lidar com o desafio


Á medida que as crianças ficam mais autónomas em termos motores, começam a compreender que existem separadamente dos pais e que podem exercer algum controlo no mundo. Uma forma poderosa de o fazerem é desafiando os pais. Querem afirmar-se, fazer coisas sozinhas de forma a construir a sua autoconfiança e autonomia. O ideal é encontrar formas de mostrar-lhe que pode exercer algum controlo e fazer as suas próprias escolhas de uma forma positiva.

Algumas crianças são, mais desafiantes do que outras. Crianças que têm reacções emocionais intensas, assim como as que são mais tímidas e cautelosas, podem ser mais desafiantes do que aquelas que têm um temperamento mais calmo e flexível. Isto porque têm dificuldades com as mudanças, por exemplo, ir para a cama, visitar um lugar novo, etc. As mudanças normais ao longo do dia, podem ser stressantes e resultar numa grande variedade de estratégias de protesto por parte das crianças.

Pensar nas seguintes questões pode ajudá-lo a adaptar e aplicar a informação à sua criança e à sua família:

  • A que é que a sua criança tende a opor-se mais? O que é que essas situações têm em comum (se têm)?
  • Porque acha que essas situações levam a sua criança a comportar-se assim? Como acha que esse entendimento a pode ajudar a ajudar a sua criança a lidar melhor com essas situações?
  • Como reage, quando a sua criança a desafia? O que é que resulta e o que é que não resulta? O que pode aprender acerca disto?

Por volta dos 18 meses, as crianças começam a compreender que existem separadamente dos outros – que têm os seus próprios pensamentos e sentimentos. Compreendem e podem seguir orientações simples mas estão ansiosas por deixar a sua “marca” no mundo e uma das formas de o demonstrarem é, desafiando os seus pais. Este tipo de comportamento é típico nesta fase do desenvolvimento, em que as crianças estão desejosas de exercer algum controlo sob o mundo e fazer as suas próprias escolhas.

 Lidar com o desafio e o comportamento de oposição: o que podemos fazer

1.    Antecipar as situações que podem levar a criança a desafiá-la, pode ajudá-la a lidar com essas situações. Por exemplo, fazer com que ela saiba que compreende como lhe é difícil ir para a creche. Pode oferecer-lhe a possibilidade de levar um brinquedo para ajudá-la a fazer a transição. Pode também dar um “aviso” à criança, antes de uma transição. Pode mesmo utilizar um temporizador para que possam ter alguma noção do tempo, ou fazer um poster com imagens das rotinas diárias, como por exemplo, imagens de lavar os dentes, lavar o rosto, ler e depois ir para a cama, mostram às crianças o que podem esperar que aconteça a seguir. Para crianças um pouco mais velhas, pode dar “pistas” sobre as transições, como “Mais três vezes no escorrega e depois vamos embora”.

É muito importante agir de acordo com o limite que se definiu.

  1. Deve responder com empatia e definir limites claros. Deve validar os sentimentos da sua criança; isso ajuda-a a perceber que os seus sentimentos importam. Para muitas crianças, a empatia e validação ajuda-as a acalmar-se. Dar um nome aos seus sentimentos também a ajuda a aprender a tomar consciência das suas emoções e, aprender a geri-las. Deve usar linguagem simples e directa: “Eu sei que não queres vestir o pijama. É difícil deixar a brincadeira para ir para a cama”. Quando salta esta etapa, as crianças normalmente reagem mais intensamente para lhe mostrar como estão chateadas. É nesta fase, normalmente, que começam as birras.
  2. Defina o limite. “Está na hora de ir para a cama. Precisas de dormir para que o teu corpo possa descansar e crescer forte e saudável.” Use linguagem que a criança compreenda, frases curtas e claras, mas não ameaçadoras.
  3. Ofereça algumas escolhas: “Queres vestir o pijama antes ou depois de lermos a história?” ou dar-lhe a escolher, entre dois pijamas de que ela gosta. Dar a possibilidade de escolha à criança, permite-lhe sentir algum controlo mas de forma positiva e pode reduzir os comportamentos de oposição.
  4. Use de sentido de humor. É uma óptima forma de retirar alguma intensidade à situação. Use a imaginação. Por exemplo, para uma criança que se recusa a ir para a cama: A Mariana (boneca) está tão cansada, ela quer dormir e quer que te deites com ela…”
  5.  Aplique o limite. Se nenhuma das estratégias descritas resultar, aplique calma e firmemente o limite. “Podes ir para o teu lugar no carro, ou eu coloco-te lá. Escolhe.” Se a criança resistir, faça-o. Com um tom de voz calmo, pode dizer que compreende que ele não gosta de tal situação ou, simplesmente, começar a falar sobre outro assunto. “Uau, olha só para aquele cão enorme ali na rua.” E evite ceder. Se ceder às birras, a criança aprende que, se insistir o suficiente, consegue aquilo que quer.
  6. Pense nos seus próprios comportamentos: estará a enviar mensagens contraditórias à criança? Por vezes, as nossas próprias escolhas podem influenciar o comportamento das crianças. Evite a armadilha do “Está bem?”. “Vamos para a cama agora, está bem?”. É uma forma confusa para as crianças mais novas, porque pensam que têm a hipótese de dizer “Não”. Assegure-se de que comunica claramente o que não oferece escolha. “Está na hora de vestir o pijama e preparar-se para ir para a cama. Queres vestir o pijama verde, ou o vermelho?”
Quando procurar ajuda

Se o comportamento da criança está a interferir com o seu funcionamento diário, na sua capacidade de fazer amigos e interagir com estes, com as suas competências de exploração e aprendizagem ou a afectar negativamente a relação com os pais, então, é importante procurar ajuda profissional adequada. Uma avaliação feita por um profissional na área da infância, pode fornecer informações importantes sobre o que poderá estar na raiz do comportamento desafiador da criança e dar ideias sobre como poderá ajudá-la a lidar melhor com determinadas situações.

 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014


A Época Natalícia

A época natalícia que se aproxima, deve ser para as famílias que frequentam o Programa de Competências Parentais, em que está presente um certo nível de risco, que passa muitas vezes por dificuldades económicas, uma época bem diferente da sociedade consumista em que vivemos, com as crianças a fantasiarem um Pai Natal que vem da Lapónia, no seu trenó voador, puxado por renas mágicas e carregado de presentes que viram na televisão.

Para além do lanche natalício que praticamente todos os projetos locais realizam, em que as cuidadoras participantes levam os filhos, a noite de 24 ou o dia de 25 de dezembro deve ser para estas pessoas um dia diferente, em que o espirito natalício pode ser transmitido aos seus filhos, como uma época de reunião de famílias, de solidariedade e de generosidade.

As famílias podem assim reunir-se para uma refeição em conjunto, em que cada membro contribua com algo, em que as pessoas vão à missa do galo, cumprindo tradições há muito enraizadas. Podem também fazer uma ação de solidariedade, levando um bolo a um vizinho idoso, que não tenha companhia neste dia e um sinal de generosidade pode ser a partilha de presentes simbólicos ou a partilha de uma actividade do tipo de amigo secreto, em apenas uma dos membros da família recebe um presente de outro membro da família.

Também o Natal pode ser mágico e encantador, para estas famílias onde a fantasia do Pai Natal, por vezes, não chega.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014


 Programa de educação parental e a mudança


Tornar-se pai ou mãe, é uma das mudanças mais radicais, em termos do perfil de desenvolvimento de uma pessoa.

Num mundo ideal, todos os jovens teriam crescido num ambiente que os preparasse para serem afectivos e responsivos para os seus próprios filhos, com base nas suas próprias experiências da infância, de papeis e modelos positivos, do apoio que se prolongou no tempo e da ajuda que receberam da sua família e amigos.

Desafortunadamente, a realidade de muitas vidas é muito diferente. A maioria dos pais gosta dos seus filhos e quer que eles tenham lares afectuosos. Contudo, quando muitos adultos se tornam pais, eles estão ainda a lutar para se reconciliarem com questões relacionadas com o seu próprio desenvolvimento. Estes pais podem estar de tal maneira sobrecarregados com as suas necessidades que não foram cumpridas, que são incapazes de se focalizarem nas necessidades ou em irem ao encontro das necessidades dos seus filhos.

Estas dificuldades são compatíveis com o conjunto de características descritas nas determinantes da parentalidade. A determinante das experiências desenvolvimentais dos pais têm um papel muito importante no comportamento parental, uma vez que, as próprias experiencias parentais na infância, influencia os seus traços de personalidade e o seu bem estar psicológico.

A sua participação em programas de educação parental, funciona como um lugar de apoio, seguro, que lhes permite “largar o excesso de bagagem” da sua própria experiencia de vida. Desta forma, a sua auto-imagem pode tornar-se mais focalizada no seu papel de pais e nas alegrias e responsabilidades inerentes ao seu papel. Uma vez que esta transição ocorre, os pais ficam prontos e ansiosos pela ajuda e apoio contínuo, à medida que trabalham para se tornarem pais mais adequados.

 Bibliografia:
Parents Anonymous: The Model For Parent Education. Program Bulletim 2000 Parents Anonymous Inc

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Avaliação parental e Parentalidade minimamente adequada



Segundo Pereira & Alarcão (2010), a avaliação parental num contexto de proteção à infância, tem a ver com a elaboração de um parecer sobre a adequação do comportamento parental no presente (em termos de competências parentais) e no futuro (em relação às capacidades parentais).

No entanto, as mesmas autoras, referem ainda que a avaliação parental é considerada uma tarefa difícil, devido ao facto de ocorrer num contexto de grande emocionalidade, à falta de guiões de avaliação que permitam aferir uma “competência parental mínima” e à ausência de critérios claros sobre o que constitui uma parentalidade “suficientemente boa”.

Citando Reder,et al., Pereira e Alarcão (2010) referem que a avaliação parental é apontada como um processo planeado, capaz de transmitir informações sobre o seu funcionamento e o dos pais, permitindo formar uma opinião sobre se as necessidades da criança estão a ser satisfeitas. As autoras acrescentam ainda, a previsão da forma como se poderão usar os recursos disponíveis para o exercício da sua parentalidade no futuro. Choate (2008) acrescenta ainda que esta avaliação deve determinar se em relação às crianças ou jovens, se os pais podem proporcionar um envolvimento seguro, estável, e previsível que a apoie em termos de desenvolvimento psicológico e físico, as especificidades da criança.

Crawford (2011) refere que na avaliação o avaliador tem que fazer a distinção entre competências parentais e capacidades parentais. Assim, as competências parentais referem-se à aptidão para o desempenho da parentalidade por um curto período de tempo, num envolvimento específico. Contudo, isto não demonstra a capacidade de exercer a parentalidade a longo termo. As capacidades parentais estão muito dependentes de fatores contextuais, tais como a cultura, crenças e valores, circunstâncias socioeconómicas e proximidade da rede de apoio informal.

Apesar de não existir um critério universalmente aceite daquilo que se definiria como “parentalidade minimamente adequada” existem expetativas apontadas por Woodcock (2003), e referidas por Pereira e Alarcão (2010), que se referem: (1) à expetativa de “prever o dano”; (2) expetativa dos pais serem capazes de satisfazer os níveis de desenvolvimento da criança; (3) expetativa dos pais assegurarem os cuidados físicos dos filhos; (4) expetativa dos pais serem emocionalmente sensíveis e estarem disponíveis.

A parentalidade minimamente adequada deve ainda incluir, segundo Choate (2009), rotinas, previsibilidade, segurança e limites apropriados, uma emocionalidade positiva expressa pelos pais para com a criança e uma abordagem centrada na criança na relação entre os pais e filhos.

Por seu lado, Crawford (2011) aponta a capacidade de adaptação positiva dos pais à mudança de necessidades e às circunstâncias da vida das crianças.

Numa perspetiva sistémica, podemos referir que todos os elementos dos vários níveis ecológicos são operacionalizados nesta definição de parentalidade minimamente adequada. Assim, são apontados entre outros, os técnicos e os seus valores culturais, bem como as definições de cada família, a capacidade parental para lidar com os desafios comportamentais dos filhos e lidar com as suas próprias características. São também consideradas as normas culturais, sociais e legais vigentes em cada contexto. Isto acontece numa perspetiva de análise das características dos pais, da criança e do contexto, segundo o modelo de Belsky.

O Conselho da Europa, definiu em 2006, o desempenho positivo do papel parental como “o comportamento parental focado nos interesses da criança, que seja cuidador, capacitante, não violento, que reconheça a criança e a oriente, o que implica a definição de limites para potenciar o seu desenvolvimento integral” (pp. 2). Atualmente o Conselho da Europa recomenda como princípios orientadores das politicas de apoio à parentalidade a Convenção dos Direitos da Criança, a parentalidade positiva, a eliminação da punição física, a promoção da igualdade de género, as responsabilidades parentais e uma cultura de não violência.

Não podemos negar que a parentalidade é um desafio constante para o ser humano, que enfrenta poucas certezas, algumas hesitações e muitas dúvidas sobre a temática.

Podemos então concluir que a avaliação parental é o meio privilegiado para a determinação da existência de uma parentalidade minimamente adequada, que permita o desenvolvimento adequado e global da criança, para que ela possa de futuro desempenhar a sua cidadania de forma plena, sendo também um processo importante na proteção social da criança.

Bibliografia

Choate, P. (2009) Parenting capacity assessments in child protection casa. In The Forensic Examiner, spring 18 (1)

Crawford, J. (2011) Bringing it together: Assessing parenting capacity in the child protection context. In Social Work Now, April. pp.18-26

Pereira. D.; Alarcão. M. (2010) Avaliação da parentalidade no quadro de proteção à infância. In Temas em Psicologia 18(2) pp. 499-517

 

terça-feira, 23 de julho de 2013


Intervenção Precoce ou Competências Parentais?

 
É sabido da importância das primeiras experiências, no sucesso do desenvolvimento infantil. É também comum a noção de que, as situações de pobreza familiar associada a comunidades também elas empobrecidas, limitam as possibilidades da criança beneficiar de experiências significativas de aprendizagem e desenvolvimento.

Segundo Machado (2012) a Intervenção Precoce visa prevenir a exclusão social em crianças de risco: seja este risco inerente ao seu meio de pertença (risco ambiental), ou devido às características biológicas da criança (risco biológico).

Citando vários autores como Engle, Felner, Shonkoff, Machado (2012) refere que as crianças vítimas da pobreza são sinalizadas como estando em risco, atendendo às diversas privações cumulativas de que sofrem (alimentação, cuidados de saúde, cuidados parentais adequados e educação de qualidade), que comprometem o desenvolvimento, podendo mesmo conduzir a deficits cognitivos, no desempenho e na linguagem, na infância e na adolescência. Também a pobreza gera outros fatores de risco, muitas vezes associados ao stress parental, que ao intervir nas relações pais criança, torna os cuidadores maltratantes ou negligentes, o que mais uma vez, deteriora o desenvolvimento. A ausência de fatores de proteção aumenta a vulnerabilidade da criança.

Os pais influenciam o desenvolvimento das crianças pela forma como exercem a parentalidade. A parentalidade é o conjunto de atividades exercidas no sentido de assegurar a sobrevivência e o desenvolvimento da criança, que implicam um conjunto de fatores relativos a características individuais dos pais, a características da criança e a fatores do contexto social alargado. Machado (2012) refere ainda que em risco ambiental, a conjugação destes três fatores encaminham os pais no sentido da disfuncionalidade ou da fragilidade dos cuidados que prestam. Por exemplo, o risco de situações ambientais como o consumo de drogas, a violência, mães adolescentes e psicopatologia parental, concorrem para aumentar a situação de risco da criança.

Mais uma vez, Machado (2012) citando Guralnick, aponta a sua proposta de abordagem sistémica global, como quadro unificador das práticas de Intervenção Precoce, seguindo as orientações atuais de intervenção centrada na família nas intervenções individualizadas e na coordenação de serviços de apoio. Ao intervir com a família, permite capacitar os elementos que tratam da criança, a lidar com as suas particularidades e as do seu meio, que a colocam em risco.

Verifica-se que foram as situações de desvantagem socioeconómica que impulsionaram o nascimento da Intervenção Precoce nos Estados Unidos da América, na década de 60 do século XX, com o objetivo de identificar alterações do desenvolvimento, para se poder intervir precocemente, invertendo potenciais percursos desviantes. Em 2005, 19 países Europeus juntaram-se para referir que a Intervenção Precoce é um conjunto de serviços/recursos para crianças em idades precoces e suas famílias (…) incluindo qualquer ação realizada quando a criança necessita de apoio especializado para: assegurar e incrementar o seu desenvolvimento pessoal; fortalecer as competências da própria família; e promover a inclusão da família. (in EuroNews on Special Needs Education, citado por Machado, 2012).

 Machado (2012) salienta ainda que ao agir sobre as condições do desenvolvimento, a Intervenção Precoce promove os fatores protetores, permitindo às crianças cumprir a escolaridade que se traduz depois em fatores positivos para a sociedade, que se traduzem em menores riscos de desemprego, delinquência e/ou dependência de subsídios estatais.

É neste quadro que se insere o Programa de Intervenção Precoce e Competências Parentais, cujo alvo de intervenção são as crianças de risco ambiental e as suas famílias, numa perspectiva de promover a adequação do seu desenvolvimento, do seu bem-estar e da sua futura vivencia de uma cidadania plena.

Machado, T. S. (2012) Risco ambiental e desenvolvimento na infância: Justificando a Intervenção Precoce. in Psicologia, Educação e Cultura, XVI(1), pp. 146-165.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

O Modelo Ecológico da Parentalidade


Numa apreciação critica ao Modelo de Belsky, Kotchick e Forehand (2002, citados por Barroso & Machado, 2011), estes reforçam a existência de múltiplos fatores com influencia nas práticas parentais, embora dêem mais importância ao contexto social onde a família atua, chamando a atenção para fatores fora da família como por exemplo, riscos e recursos comunitários, a qualidade da vizinhança, a pobreza, os costumes culturais e étnicos e ainda o suporte social.
A partir do modelo ecológico da parentalidade descrito por Luster & Okagaki, Kotchick & Forehand, citados por Barroso & Machado (2011) destacam-se os resultados que o contexto social promove no exercício da parentalidade, nomeadamente os efeitos provocados pela etnia e cultura, pelo estatuto socioeconómico, pelo ambiente comunitário e pela vizinhança.

Pode dizer-se que o contexto social tem uma importância basilar, mas que existe uma tendência para ignorar o impacto dos contextos de vizinhança e comunitário no comportamento humano e nas suas consequências adversas a nível dos processos psicológicos.
Num estudo realizado por Flouri et al, (2009) e citado por Barroso & Machado (2011), são comparados os efeitos contextuais, em termos de vizinhança e família com os resultados a nível da psicopatologia infantil, sendo que ambos os factores contextuais referidos têm influência àquele nível de contexto, sobretudo por ação de múltiplos riscos familiares, independentes do estatuto socioeconómico.

Quando existe privação económica, o acesso a recursos pessoais, familiares e comunitários podem atenuar os efeitos que decorrem desta desvantagem, tendo sido referida a importância do desenvolvimento de competências de autorregulação e autoestima nos programas desenhados para esta população, bem como, fomentar uma maior monitorização parental.
Podemos referir que, quando se pretende avaliar a influência do contexto comunitário sobre as percepções que os pais têm da sua parentalidade, verifica-se que as características individuais passam rapidamente para segundo plano, quando comparadas com as características dessa comunidade.

Em relação aos fatores étnico e cultural, os modelos familiares integram diversas crenças sobre as competências julgadas importantes para a sobrevivência e sucesso das crianças. É por isso que os objectivos dos comportamentos parentais em determinado contexto cultural são o de utilizar os recursos disponíveis na comunidade, tendo em vista o desenvolvimento dessas competências infantis valorizadas culturalmente.
Bibliografia:
Barroso, R.; Machado, C. (2011) Definições, dimensões e determinantes da parentalidade in Psychologica 52, pp. 211-230.

 

 

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Determinantes da Parentalidade

Uma questão que tem preocupado os investigadores, é a compreensão do porque é que certos indivíduos parecem ter mais sucesso na realização efectiva da parentalidade, ao contrário de outros. Para responder a esta questão, têm-se procurado analisar características individuais e sociais, que expliquem esta diferença.
O termo determinante(s) refere-se a qualquer fator demográfico e psicológico que se encontre relacionado com o comportamento parental (Belsky, 1990, citado por Barroso & Machado, 2011).
O comportamento parental pode ser influenciado por várias determinantes, que estão representadas no Modelo de Belsky. Este modelo presume que a parentalidade é diretamente influenciada por três determinantes: fatores individuais dos pais (personalidade e psicopatologia), fatores individuais da criança (temperamento) e fatores sociais, num contexto alargado, onde ocorrem as trocas pais-criança (relações maritais, ocupação profissional parental, redes de suporte social, …).
No caso, em que o comportamento da criança afeta o comportamento parental, Barroso & Machado (2011) referem estudos em que se concluiu, que crianças com um temperamento mais difícil (maior negativismo, irritabilidade ou pouca sociabilidade), despertam comportamentos parentais de maior hostilidade, menor responsividade e menos sensibilidade para com a criança.
Relativamente às caraterísticas dos pais, Barroso & Machado (2011), apresentam fatores da personalidade como sendo facilitadores da parentalidade, tais como elevados índices de extroversão, de amabilidade, de abertura a novas experiências e de consciência, o que poderá estar na origem de um padrão educativo de maior suporte, responsividade e estimulação inteletual.
As experiências desenvolvimentais dos pais durante a sua infância, influenciam o comportamento enquanto pais, os seus traços de personalidade e o seu bem-estar social.
Finalmente, no que se refere aos fatores sócio-contextuais, Barroso & Machado (2011) referem que a rede de apoio social, bem como as caraterísticas da vizinhança e da comunidade em que a família se insere, determinam certos comportamentos na atividade parental. É referida a importância da coesão e organização social e ainda a existência de redes de suporte informal e formal na prevenção de ambientes de risco e perigo. Em termos da relação marital, os estudos comprova que o funcionamento marital negativo e conflituoso, tem um efeito contraproducente no desenvolvimento e na saúde física e psicológica da criança. Relativamente à empregabilidade, os estudos apontam o impacto no ambiente familiar e no desenvolvimento da criança.
Citado por Barroso & Machado (2011), Belsky considera este modelo, como dinâmico e moderador, possibilitando a observação dos sistemas de proteção de ameaças à parentalidade. Os autores referem ainda que, a parentalidade ótima, é definida como um estado dinâmico entre as três determinantes da parentalidade (caraterísticas da criança, dos pais e do contexto), que podem variar, em função do que permitir uma melhor qualidade de cuidados à criança, num dado momento. Verifica-se que os três determinantes da parentalidade, não exercem o mesmo peso neste sistema. Belsky considera que a determinante crucial se refere às caraerísticas parentais (a nível dos recursos pessoais e psicológicos), seguido das fontes contextuais e sociais de apoio, e por fim das características da criança. Assim, desde que os recursos pessoais e psicológicos parentais permaneçam em ação, mesmo que dois ou três determinantes estejam em risco, um alto funcionamento parental continuará a ocorrer.
 Bibliografia:
Barroso, R.; Machado, C. (2011) Definições, dimensões e determinantes da parentalidade in Psychologica, 52, pp. 211-229